Saiba Mais

Um novo mindset para a advocacia empresarial

A grade curricular dos cursos de direito não mudou significativamente da estrutura dos cursos do século XIX, continuamos adquirindo conhecimento técnico-jurídico de forma fracionada.

Estudamos primeiro a teoria e depois a prática.

Direito empresarial (ou comercial), direito do trabalho, direito tributário são disciplinas diferentes e que não conversam entre si.

Esta trajetória educacional forma um profissional com uma visão de mundo de especialização (trabalhista, tributário, societário, penal…) que trabalha com estruturas estáticas (petições, pareceres…), valoriza os fatos e eventos pela sua hierarquia (atribui grau de importância e valorização das coisas), treinado com uma visão positivista/kelseniana de que é preciso separar o Direito de outras ciências e que é necessário entender as partes e objetos para se reconstruir o todo, aplicando o seu conhecimento subjetivo/objetivo para enquadrar fatos e eventos a uma norma jurídica. Um profissional que busca a verdade, a certeza e a precisão e cujo método de abordagem é analítico.

A pergunta que fica no ar é se o profissional formado com este mindset clássico tem os referenciais de competência necessários para agregar valor às organizações?

Vivemos um ambiente empresarial VUCA, de volatilidade (volatility), incerteza (uncertainty), complexidade (complexity) e ambiguidade (ambiguity).[1] Profissões tradicionais estão sendo ameaçados por soluções tecnológicas cognitivas (robôs). A maior empresa de transporte de táxis (uber) não tem carros, a maior empresa de hospedagem (airbnb) não tem imóveis, o maior varejista (Alibaba) não tem depósitos.

A economia dos negócios está mudando e as empresas estão buscando profissionais mais preparados para esta nova realidade.

É preciso um novo mindset, onde a especialização é substituída pela transdisciplinaridade (agregar ao conhecimento jurídico também o de contabilidade, economia, administração e outras ciências), as situações não são mais tratadas através de estruturas estáticas e sim como processos dinâmicos (em movimento) onde as ferramentas passam a construir cenários e mapas de risco para auxiliar no direcionamento. Os fatos e eventos não são classificados por hierarquia e sim com uma visão de rede, de conexões e relacionamentos, o que leva a uma compreensão do todo ao invés do olhar reducionista de partes e objetos.

O conhecimento não é mais subjetivo/objetivo e sim orgânico, o profissional não passa mais a buscar a verdade, a certeza e a precisão, mas a considerar que a complexidade e a incerteza como características deste ambiente não levam a uma certeza e sim a uma aproximação, mudam o seu papel clássico de suporte de tomada de decisão para o de ator em uma tomada de sentido onde a estrutura de informação deve ser ao mesmo tempo quantitativa (matemática, estatística) e qualitativa, substituindo a abordagem analítica por uma lente mais ampliada, contextual.

As organizações querem profissionais que saibam navegar na complexidade e que uma vez estabelecidos o “objetivo” (missão, meta, resultado) e as “regras de navegação” (eficiência, qualidade, desempenho), saibam tomar as iniciativas necessárias para cumprir o seu propósito (Le Boterf).

——————
[1] O termo VUCA tem origem no vocábulo militar.

Juliano Nicola Sangalli – Presidente da Associação Brasileira de Direito & Administração ABD&A. Diretor Jurídico e de Relacionamento com o Cliente da UNICASA Indústria de Móveis. Professor do Núcleo de Direito, Economia e Negócios do CEU-IICS.

Fonte: https://jota.info/colunas/coluna-da-abda/um-novo-mindset-para-a-advocacia-empresarial-10042017