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Marie-Joëlle Zahar, pesquisadora de política internacional: “A pior crise humanitária ocorre no Sudão do Sul”

Autora: Ana Lucia Azevedo

Especialista em conflitos internacionais, ela esteve no Rio para conferência sobre mediação e processos de paz, organizada por Brics Policy Center e PUC-Rio

“Não sei se o mundo está mais violento ou se a violência está mais visível, com as redes sociais e outras tecnologias”, diz pesquisadora

“Sou diretora da Rede de Pesquisa sobre Operações de Paz na Universidade de Montreal e pesquisadora do International Peace Institute, em Nova York. Tenho 53 anos, escrevi e editei mais de 70 livros. Já participei da mediação de conflitos do Departamento de Assuntos Políticos da ONU, após atuar em países sob conflito.”

Conte algo que não sei.

Só quem viveu sob o terror da guerra consegue perceber o quão destrutiva em todas as esferas ela pode ser. Arrasa pessoas, famílias, cidades, países. Cresci sob a guerra civil no Líbano e tudo o que fiz, desde o início da carreira, é dedicado à paz e a mostrar o horror da guerra.

Como e quando o conflito na Síria poderá ter um fim?

É um conflito extremamente complexo. Há muitos grupos e interesses envolvidos, dentro e fora da Síria. E a gravidade aumentou nos últimos meses, devido à escalada das tensões internacionais. Estados Unidos e Rússia têm papel importante. Mas, hoje, talvez nem um acordo entre os dois possa resolver. Porém, temos que continuar buscando a paz. As negociações, o diálogo, não podem parar por mais difíceis que sejam.

Como mediar conflitos quando há grupos terroristas envolvidos, como o Estado Islâmico na Síria e no Iraque?

Não é possível pensar em negociar com o Estado Islâmico. Mas é possível se aproximar de grupos que dão suporte ao EI, por se sentirem isolados. Esses grupos e populações podem ser radicais, mas não são terroristas. Porém, acabam empurrados para a esfera do EI por se sentirem excluídos e perseguidos.

Não haverá paz na Síria enquanto o EI estiver presente?

O Estado Islâmico fomenta o terror e a guerra. Com ele forte, não há paz. Mas com ele enfraquecido e isolado, podemos pensar em resolução do conflito.

O que pode fazer avançar as negociações na Síria?

Dar mais voz e participação à sociedade civil. Antes da guerra, a Síria tinha uma sociedade secular, estruturada e atuante. Essa sociedade secular ainda existe e nela as mulheres têm papel ativo e qualificado. A participação da sociedade civil é fundamental. Temos visto alguns avanços nesse sentido. Agora, 12 mulheres são conselheiras das mediações de conflito na Síria. É um sinal importante.

O mundo está mais violento?

Não sei se o mundo está mais violento ou se a violência está mais visível, com as redes sociais e outras tecnologias. Antes de coisas como acesso à GPS, internet em toda parte e redes sociais, os conflitos aconteciam em pontos remotos da África e da Ásia e ninguém tomava conhecimento. Hoje, sabe-se de imediato.

Está mais inseguro?

Eu diria que está mais instável. As duas grandes potências continuam a ser Estados Unidos e Rússia e eles não se entendem no Conselho de Segurança. Essa instabilidade não deixa nenhuma questão importante avançar. Porém, a China tem exercido papel interessante e ocupa cada vez mais espaço em missões de paz importantes. Isso pode ajudar a equilibrar um pouco as diferenças entre as potências.

E qual o papel do Brasil?

O Brasil tem papel significativo na América do Sul e na África. É importante nas negociações de paz nessas regiões porque tem credibilidade.

Qual é o país em pior situação humanitária hoje?

Todos pensam na Síria. Lá a situação é desesperadora, sem dúvida. Mas há ao menos negociação, interlocutores, sociedade organizada. Em nenhum outro lugar o caos é tão grande quanto no Sudão do Sul. Lá acontece a pior crise humanitária do planeta. O poder está completamente fragmentado, estraçalhado. Há tantas lideranças que nenhuma tem força para obter a paz. Não há interlocutores. Só sofrimento.

Fonte: https://oglobo.globo.com/sociedade/conte-algo-que-nao-sei/marie-joelle-zahar-pesquisadora-de-politica-internacional-pior-crise-humanitaria-ocorre-no-sudao-do-sul-1-21652507