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Quando os irmãos não se entendem sobre os cuidados com os pais

Autora: Mariza Tavares

Lembra das brigas na infância e na adolescência? Das disputas pela atenção e pelo carinho de pai e mãe? Das mágoas por causa das fantasias sobre quem era o filho preferido? O tempo passa, as feridas parecem cicatrizadas, mas o conflito pode explodir numa situação na qual todos deveriam estar empenhados em superar diferenças: na sua velhice. Para muitos irmãos, é bastante difícil trabalhar em conjunto para atender às necessidades daqueles que os criaram e que agora precisam de cuidados. Decisões de curto, médio e longo prazo acabam sendo prejudicadas por discussões e rivalidades. Como nem sempre haverá uma mediação – pelo menos uma terceira parte que consiga aparar as arestas – é importante respirar fundo e pensar duas vezes antes de falar ou fazer algo que deixará marcas profundas nas relações familiares. Se os problemas forem incontornáveis, a saída é buscar um mediador, que pode ser um médico geriatra, ou um advogado, terapeuta ou psicólogo.

 Os embates começam inclusive com um processo de negação: é relativamente comum que um dos irmãos insista que os pais ainda são independentes e mantêm sua autonomia, quando todos os sinais apontam na direção oposta. No caso das demências e da Doença de Alzheimer, a falta de informação pode provocar esse comportamento. Se alguém da família está mais próximo deles no dia a dia, é indispensável marcar uma conversa para compartilhar angústias, temores e expectativas, deixando claro que o objetivo é garantir a qualidade de vida dos idosos. Nem todos terão a mesma disponibilidade, mas como cada um vai ajudar? Fazendo compras, pagando contas, dedicando tempo como cuidador? Os netos já estão numa idade em que poderão participar?

 O cuidado acaba sendo uma tarefa feminina. Mulheres deixam até de trabalhar e abrem mão de sua segurança financeira. Isso alimenta mágoas, porque há uma enorme demanda física e emocional que drena suas energias. Quem não está na linha de frente não tem uma visão clara disso, portanto diga, com todas as letras, que precisa de auxílio, mas de forma prática: liste coisas que devem ser feitas, avise quando precisar de uma folga para ir ao médico ou ao dentista. E saiba que muitos fogem porque têm medo de encarar o declínio dos pais e a perspectiva da sua morte.

 Crystal Thorpe, mediadora de conflitos familiares e coautora do livro “Mom always liked you best” (em tradução livre, “Mamãe sempre gostou mais de você”), declarou em entrevista ao jornal americano “The New York Times”: “mesmo no caso de adultos muito bem-sucedidos profissionalmente, é comum que antigas emoções venham à tona quando voltam para o seio da família, dificultando que a pessoa se veja como é agora”. Para a também mediadora Susanne Terry, “quase sempre todos querem o melhor para seus pais. A questão é que cada um tem sua própria visão e acha que esta é a correta”. Por isso, o segredo é não deixar que as relações azedem por completo, focando no bem-estar deles para não causar sofrimento no fim de suas vidas e destruir a rede de afeto construída anos atrás.

Fonte: http://g1.globo.com/bemestar/blog/longevidade-modo-de-usar/post/quando-os-irmaos-nao-se-entendem-sobre-os-cuidados-com-os-pais.html